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25 abril 2014

As Portas que Abril abriu




No dia em que se comemoram 40 anos sobre a histórica Revolução dos Cravos, que finalmente colocou Portugal na rota da democracia, tomo a liberdade de, 39 anos depois da sua publicação, transcrever, na íntegra, a poesia «As portas que Abril abriu», da autoria do grande poeta e declamador português Ary dos Santos (1937-1984).


As portas que Abril abriu


poema: Ary dos Santos
ilustrações: António Pimentel
Editorial Comunicação



Era uma vez um país
Onde entre o mar e a guerra
Vivia o mais infeliz
Dos povos à beira-terra

Onde entre vinhas        sobredos
Vales   socalcos           searas
Serras  atalhos             veredas
Lezírias e praias claras
Um povo se debruçava
Como um vime de tristeza
Sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.
Era uma vez um país
De tal maneira explorado
Pelos consórcios fabris
Pelo mando acumulado
Pelas ideias nazis
Pelo dinheiro estragado
Pelo dobrar da cerviz
Pelo trabalho amarrado
Que até hoje se diz
Que nos tempos do passado
Se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas               sobredos
Vales   socalcos           searas
Serras  atalhos             veredas
Lezírias e praias claras
Vivia um povo tão pobre
Que partia para a guerra
Para encher quem estava podre
De comer a sua terra

Um povo que era levado
Para Angola nos porões
Um povo que era tratado
Como a arma dos patrões
Um povo que era obrigado
A matar por suas mãos
Sem saber que um bom soldado
Nunca fere os seus irmãos

Ora passou-se porém
Que dentro de um povo escravo
Alguém que lhe queria bem
Um dia plantou um cravo

Era a semente da esperança
Feita de força e vontade
Era ainda uma criança
Mas já era liberdade.

Era já uma promessa
Era a força da razão
Do coração à cabeça
Da cabeça ao coração
Quem o fez era soldado
Homem novo, capitão
Mas também tinha a seu lado
Muitos homens na prisão

Esses que tinham lutado
A defender um irmão
Esses que tinham passado
O horror da solidão
Esses que tinham jurado
Sobre uma côdea de pão
Ver o povo libertado
Do terror da opressão

Não tinham armas é certo
Mas tinham toda a razão
Quando um homem morre perto
Tem de haver distanciação

Uma pistola guardada
Nas dobras da sua opção
Uma bala disparada
Contra a sua própria mão
E uma força perseguida
Que na escolha do mais forte
Faz com que a força da vida
Seja maior que a da morte.

Quem o fez era soldado
Homem novo, capitão
Mas também tinha a seu lado
Muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
Começou a floração
Do capitão ao soldado
Do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
Percebeu qual a razão
Porque o povo despojado
Lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
Em sua própria grandeza
Era soldado forçado
Contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
E no seu próprio país
Muitas vezes estrangulado
Pelo generais senis.

Capitão que não comanda
Não pode ficar calado
É o povo que lhe manda
Ser capitão revoltado
É o povo que lhe diz
Que não ceda e não hesite
- pode nascer um país
Do ventre de uma chaimite.

Porque a força bem empregue
Contra a posição contrária
Nunca oprime nem persegue
- é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
As portas da claridade
E a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
Na madrugada serena
Um poeta que cantava
O povo é quem mais ordena.

E então por vinhas       sobredos
Vales   socalcos           searas
Serras  atalhos             veredas
Lezírias e praias claras
Desceram homens sem medo
Marujos           soldados          “páras”
Que não queriam o degredo
Dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
Onde os monstros se acoitavam
Era a hora da verdade
Para as hienas que mandavam
A hora da claridade
Para os sóis que despontavam
E a hora da vontade
Para os homens que lutavam.

Em idas            vindas              esperas
Encontros        esquinas           e praças
Não se pouparam as feras
Arrancaram-se as mordaças
E o povo saiu à rua
Com sete pedras na mão
E uma pedra de lua
No lugar do coração.

Dizia soldado   amigo
Meu camarada e irmão
Este povo está contigo
Nascemos no mesmo chão
Trazemos a mesma chama
Temos a mesma ração
Dormimos na mesma cama
Comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
Soldadinho ou capitão
Este povo está contigo
A malta dá-te razão.

Foi esta força viril
De antes quebrar que torcer
Que em vinte e cinco de Abril
Fez Portugal renascer.

E em Lisboa     capital
Dos novos mestres de Aviz
O povo de Portugal
Deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado
Às vezes por mãos estranhas
O poder que ali foi dado
Saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
Vales   socalcos           searas
Serras  atalhos             veredas
Lezírias e praias claras
Onde um povo se curvava
Como um vime de tristeza
Sobre um rio onde mirava
A sua própria pobreza.

E se esse poder um dia
O quiser roubar alguém
Não fica na burguesia
Volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
Que em boa hora o pariu
Agora ninguém mais cerra
As portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
Se escancaravam de vez
Essas janelas vazias
Que se encheram outra vez
E essas celas tão frias
Tão cheias de sordidez
Que espreitavam como espias
Todo o povo português.

Agora que já floriu
A esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
Levantado como um punho
Em Maio surgiu vermelho
O cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários         mineiros
pescadores e ganhões
Marçanos e carpinteiros
Empregados dos balcões
Mulheres a dias            pedreiros
Reformados sem pensões
Dactilógrafos               carteiros
E outras muitas profissões
Souberam que o seu dinheiro
Era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
Jornalistas que escreviam
Actores que se desdobravam
Cientistas que aprendiam
Poetas que estrebuchavam
Cantores que não se vendiam
Mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
Escrever constrói liberdade
E não há coisa mais pura
Do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
Na mesma luta de ideais
Ambos sectores explorados
Ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
Entre pragas e perjúrios
Agulhas que se espetavam
Silêncios boatos murmúrios
Risinhos que se calavam
Palácios contra tugúrios
Fortunas que levantavam
Promessas de maus augúrios
Os que em vida se enterravam
Por serem falsos e espúrios
Maiorais da minoria
Que diziam silenciosa
E que em silêncio fazia
A coisa mais horrorosa:
Minar como um sinapismo
E com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então         se bem vos lembro
Que sucedeu a vindima
Quando pisámos Setembro
A verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
Que sabia tanto a Abril
Que nem o medo da morte
Nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
Juntos soldados e povo
Para mostrarmos como é
Que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!                 
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
Odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
Mais forte que a Primavera
Que trouxe os homens sem dono
De que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
Pescadores e ganhões
Operários e carpinteiros
Empregados dos balcões
Mulheres a dias            pedreiros
Reformados sem pensões
Dactilógrafos               carteiros
E outras muitas profissões
Que deu o poder cimeiro
A quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
Nós repartimos o pão
É que acabaram os bodos
- cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas        vivendas
Palácios e palacetes
Os generais com prebendas
Caciques e cacetetes
Os que montavam cavalos
Para caçarem veados
Os que tinham bons amigos
No consórcio dos sabões
E coçavam os umbigos
Como quem coça os galões
Os generais subalternos
Que aceitavam os patrões
Os generais inimigos
Os generais garanhões
Teciam teias de aranha
E eram mais camaleões
Que a lombriga que se amanha
Com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
Já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
Foi um baile de Tartufos
Uma alternância de terços
Entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
E para terras de Espanha
Os que faziam alardes
Dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
Capitães de pedra e cal
Os homens que na Guiné
Aprenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
Que um animal racional
Opõe àqueles que o firam
Consciência racional.

Os tais homens que souberam
Fazer a revolução
Porque na guerra entenderam
O que era a libertação.

Os que viram claramente
E com os cinco sentidos
Morrer tanta    tanta gente
Que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
Temperado com a tristeza
Que envolveram num abraço
Toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
E depois tão maltratada
Por quem herdou a desdita
Da história colonizada.

Daí ao povo o que é do povo
Pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo
Nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
E uma vela desfraldada
Para levar a ternura
À distância imaginada.

Foi este lado da história
Que os capitães descobriram
Que ficará na memória
Das naus que de Abril partiram

Das naves que transportaram
O nosso abraço profundo
Aos povos que agora deram
Novos países ao mundo.

Por saberem como é
Ficaram de pedra e cal
Capitães que na Guiné
Descobriram Portugal.

E em sua pátria fizeram
O que deviam fazer:
Ao seu povo devolveram
O que o povo tinha a haver:
Bancos            seguros            petróleos
Que ficarão a render
Ao invés dos monopólios
Para o trabalho crescer.
Guindastes       portos              navios
E outras coisas para erguer
Antenas centrais e fios
Dum país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
É preciso é aquecer
Pensar que somos um rio
Que vai dar onde quiser

Pensar que somos um mar
Que nunca mais tem fronteiras
E havemos de navegar
De muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
No Alentejo com pão
No Ribatejo com vinho
Na Beira com requeijão
E trocando agora às voltas
Ao vira da produção
No Alentejo bolotas
No Algarve maçapão
Vindimas no Alto Douro
Tomates em Azeitão
Azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
O povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
Em sua própria expressão:
A maneira mais primária
De que nós temos um quinhão
Da semente proletária
Da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
Homem novo               capitão
Mas também tinha a seu lado
Muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
Ainda pouco se disse
Um menino que sorriu
Uma porta que se abrisse
Um fruto que se expandiu
Um pão que se repartisse
Um capitão que seguiu
O que a história lhe predisse
E entre vinhas              sobredos
Vales   socalcos           searas
Serras  atalhos             veredas
Lezírias e praias claras
Um povo que levantava
Sobre um rio de pobreza
A bandeira em que ondulava
A sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
Ainda pouco se disse
E só nos faltava agora
Que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
Viessem ferrar o dente
Na carne dos capitães
Que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
Povo soberano e total
Que ao mesmo tempo é a voz
E o braço de Portugal.

Ouvi     banqueiros       fascistas
Agiotas do lazer
Latifundiários   machistas
Balofos verbos de encher
E outras coisas em istas
Que não cabe dizer aqui
Que aos capitães progressistas
O povo deu o poder!
E se esse poder um dia
O quiser roubar alguém
Não fica na burguesia
Volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
Que em boa hora o pariu
Agora ninguém mais cerra
As portas que Abril abriu!


Lisboa, Julho-Agosto de 1975
poema: Ary dos Santos
ilustrações: António Pimentel
Editorial Comunicação

O meu país não é deste Presidente, nem deste Governo

 

     No dia em que se comemoram 40 anos sobre a histórica Revolução dos Cravos, que finalmente colocou Portugal na rota da democracia, não posso de deixar de transcrever o artigo que foi publicado no site do Jornal "Público" em 8 de Abril de 2014, e que ilustra bem o estado em que Portugal chegou.      Quarenta anos depois apresentamos uma democracia podre, que mais se assemelha a uma ditadura disfarçada, ainda por cima integrados numa União Europeia que, de união tem muito pouco....
     Alexandra Lucas Coelho, jornalista e escritora portuguesa, ilustra bem a situação em que Portugal se encontra, no discurso que proferiu, aquando da entrega do prémio APE (Associação Portuguesa de Escritores). 


Crónica de opinião transcrita do site do Jornal "Público", de 8 de Abril de 2014:


= Alexandra Lucas Coelho recebeu nesta segunda-feira (7 de Abril de 2014) o prémio APE (Associação Portuguesa de Escritores) pelo romance «E a Noite Roda».
Este é o texto do discurso que fez, no qual critica o actual poder político. (em Portugal) =


     ''«E a Noite Roda» não é sequer o melhor romance que eu podia ter escrito entre 2010 e 2011, os meus últimos meses em Portugal e o meu primeiro ano no Brasil. Não foi, certamente, o que muita gente achava que eu devia ter feito. É apenas o que eu precisava de fazer naquele momento para sair do ponto em que estava. O importante não será fazer o melhor que sabemos, mas o que precisamos de fazer, mesmo não sabendo, para sair do nosso limite. Aquilo que nos desloca se estamos fixos, que nos fixa se estamos deslocados.

     Estou a voltar de três anos e meio a morar no Brasil. Um dia, a meio dessa estadia brasileira, pediram-me que gravasse um excerto de um conto de Clarice Lispector para o site do Instituto Moreira Salles. Era um conto em que a protagonista era portuguesa, daí o pedido, que a voz coincidisse com o sotaque. Como detestei aquela portuguesa do conto da Clarice. Tudo na boca dela era inho e ito. Era o Portugal dos Pequenitos com a nostalgia das grandezas. Aquele que diz “cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas”, mas sofre de ressentimento. O Portugal que durante 40 anos Salazar achou que era seu, pobre mas honesto-limpo-obediente, como agora o Governo no poder quer Portugal, porque acha que Portugal é seu.

     Estou a voltar a Portugal 40 anos depois do 25 de Abril, do fim da guerra infame, do ridículo império. Já é mau um governo achar que o país é seu, quanto mais que os países dos outros são seus. Todos os impérios são ridículos na medida em que a ilusão de dominar outro é sempre ridícula, antes de se tornar progressivamente criminosa.
     Entre as razões por que quis morar no Brasil houve isso: querer experimentar a herança do colonialismo português depois de ter passado tantos anos a cobrir as heranças do colonialismo dos outros, otomanos, ingleses, franceses, espanhóis ou russos.
     E volto para morar no Alentejo, com a alegria de daqui a nada serem os 40 anos da mais bela revolução do meu século XX, e de o Alentejo ter sido uma espécie de terra em transe dessa revolução, impossível como todas.

     Este prémio é tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, cargo agora ocupado por um político, Cavaco Silva, que há 30 anos representa tudo o que associo mais ao Salazarismo do que ao 25 de Abril, a começar por essa vil tristeza dos obedientes que dentro de si recalcam um império perdido.
     E fogem ao cara-cara, mantêm-se pela calada. Nada estranho, pois, que este Presidente se faça representar na entrega de um prémio literário. Este mundo não é do seu reino. Estamos no mesmo país, mas o meu país não é o seu país. No país que tenho na cabeça não se anda com a cabeça entre as orelhas, “e cá vamos indo, se deus quiser”.
     Não sou crente, portanto acho que depende de nós mais do que irmos indo, sempre acima das nossas possibilidades para o tecto ficar mais alto em vez de mais baixo. Para claustrofobia já nos basta estarmos vivos, sermos seres para a morte, que somos, que somos.
     Partimos então do zero, sabendo que chegaremos a zero, e pelo meio tudo é ganho, porque só a perda é certa.
     O meu país não é do orgulhosamente só. Não sei o que seja amar a pátria. Sei que amar Portugal é voltar do mundo e descer ao Alentejo, com o prazer de poder estar ali porque se quer. Amar Portugal é estar em Portugal porque se quer. Poder estar em Portugal apesar de o Governo nos mandar embora. Contrariar quem nos manda embora como se fosse senhor da casa.

     Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do Governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o Governo de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este Governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página”.
     Este país é dos bolseiros da FCT (Faculdade de Ciências e Tecnologia) que viram tudo interrompido; dos milhões de desempregados ou trabalhadores precários; dos novos emigrantes que vi chegarem ao Brasil, a mais bem formada geração de sempre, para darem tudo a outro país; dos muitos leitores que me foram escrevendo nestes três anos e meio de Brasil a perguntar que conselhos podia eu dar ao filho, à filha, ao amigo, que pensavam emigrar.
     Eu estava no Brasil, para onde ninguém me tinha mandado, quando um membro do seu Governo disse aquela coisa escandalosa, pois que os professores emigrassem. Ir para o mundo por nossa vontade é tão essencial como não ir para o mundo porque não temos alternativa.

     Este país é de todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque aqui se sentem a morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito, inventivo. Conheci-os, estão lá no Rio de Janeiro, a fazerem mais pela imagem de Portugal, mais pela relação Portugal-Brasil do que qualquer discurso oco dos políticos que neste momento nos governam. Contra o cliché do português, o português do inho e do ito, o Portugal do apoucamento. Estão lá, revirando a história do avesso, contra todo o mal que ela deixou, desde a colonização, da escravatura.

     Este país é do Changuito, que em 2008 fundou uma livraria de poesia em Lisboa, e depois a levou para o Rio de Janeiro sem qualquer ajuda pública, e acartou 7000 livros, uma tonelada, para um 11.º andar, que era o que dava para pagar de aluguer, e depois os acartou de volta para casa, por tudo ter ficado demasiado caro. Este país é dele, que nunca se sentaria na mesma sala que o actual Presidente da República.
     E é de quem faz arte apesar do mercado, de quem luta para que haja cinema, de quem não cruzou os braços quando o Governo no poder estava a acabar com o cinema em Portugal. Eu ouvi realizadores e produtores portugueses numa conferência de imprensa no Festival do Rio de Janeiro contarem aos jornalistas presentes como 2012 ia ser o ano sem cinema em Portugal. Eu fui vendo, à distância, autores, escritores, artistas sem dinheiro para pagarem dívidas à Segurança Social, luz, água, renda de casa. E tanta gente esquecida. E, ainda assim, de cada vez que eu chegava, Lisboa parecia-me pujante, as pessoas juntavam-se, inventavam, aos altos e baixos.

     Não devo nada ao Governo português no poder. Mas devo muito aos poetas, aos agricultores, ao Rui Horta, que levou o mundo para Montemor-o-Novo, à Bárbara Bulhosa, que fez a editora em que todos nós, seus autores, queremos estar, em cumplicidade e entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens canibais.
     Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso.

     Portugal talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100 anos, tudo corre para acabar, sabemos. Mas enquanto isso estamos vivos, não somos sobreviventes.

     Este romance também é sobre Gaza. Quando me falam no terrorismo palestiniano confundindo tudo, Al-Qaeda e Resistência pela nossa casa, pela terra dos nossos antepassados, pelo direito a estarmos vivos, eu pergunto o que faria se tivesse filhos e vivesse em 40km por seis a dez de largura, e antes de mim os meus antecedentes, e depois mim os meus filhos, sem fim à vista. Partilhei com os meus amigos em Gaza bombardeamentos, faltas de água, de luz, de provisões, os pesadelos das meninas à noite. Depois de eu partir a vida deles continuou. E continua enquanto aqui estamos. Mais um dia roubado à morte.'' =

Fonte:
Cortesia do jornal "Público" - O meu país não é deste Presidente, nem deste Governo