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08 dezembro 2014

Ser Poeta (Perdidamente)


Florbela Espanca


Ser Poeta (Perdidamente)

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!


É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!


É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!


E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!



= Florbela Espanca, poetisa portuguesa (8 de Dezembro de 1894 - 8 de Dezembro de 1930) =



24 novembro 2014

Pedra Filosofal



Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.



Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.



Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.



Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."


 = in “ Movimento Perpétuo ”, 1956 =

= António Gedeão, pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho ou, simplesmente, Rómulo de Carvalho, químico, professor, pedagogo, investigador de História da Ciência em Portugal, e poeta português  (24 de Novembro de 1906 - 19 de Fevereiro de 1997) =

Amador sem coisa amada


Amador sem coisa amada

Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.



= António Gedeão, pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho ou, simplesmente, Rómulo de Carvalho, químico, professor, pedagogo, investigador de História da Ciência em Portugal, e poeta português  (24 de Novembro de 1906 - 19 de Fevereiro de 1997) =

Lágrima de Preta


Lágrima de Preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para analisar.


Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.


Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.


Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.


Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:


Nem sinais de negro
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.



= António Gedeão, pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho ou, simplesmente, Rómulo de Carvalho, químico, professor, pedagogo, investigador de História da Ciência em Portugal, e poeta português  (24 de Novembro de 1906 - 19 de Fevereiro de 1997) =

22 novembro 2014

A Balada da Neve




Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
. Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!… 

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil, advogado e poeta português
(31 de Julho de 1873 - 26 de Fevereiro de 1929)                                  Ver  Efemérides - 31 de Julho

25 abril 2014

As Portas que Abril abriu




No dia em que se comemoram 40 anos sobre a histórica Revolução dos Cravos, que finalmente colocou Portugal na rota da democracia, tomo a liberdade de, 39 anos depois da sua publicação, transcrever, na íntegra, a poesia «As portas que Abril abriu», da autoria do grande poeta e declamador português Ary dos Santos (1937-1984).


As portas que Abril abriu


poema: Ary dos Santos
ilustrações: António Pimentel
Editorial Comunicação



Era uma vez um país
Onde entre o mar e a guerra
Vivia o mais infeliz
Dos povos à beira-terra

Onde entre vinhas        sobredos
Vales   socalcos           searas
Serras  atalhos             veredas
Lezírias e praias claras
Um povo se debruçava
Como um vime de tristeza
Sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.
Era uma vez um país
De tal maneira explorado
Pelos consórcios fabris
Pelo mando acumulado
Pelas ideias nazis
Pelo dinheiro estragado
Pelo dobrar da cerviz
Pelo trabalho amarrado
Que até hoje se diz
Que nos tempos do passado
Se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas               sobredos
Vales   socalcos           searas
Serras  atalhos             veredas
Lezírias e praias claras
Vivia um povo tão pobre
Que partia para a guerra
Para encher quem estava podre
De comer a sua terra

Um povo que era levado
Para Angola nos porões
Um povo que era tratado
Como a arma dos patrões
Um povo que era obrigado
A matar por suas mãos
Sem saber que um bom soldado
Nunca fere os seus irmãos

Ora passou-se porém
Que dentro de um povo escravo
Alguém que lhe queria bem
Um dia plantou um cravo

Era a semente da esperança
Feita de força e vontade
Era ainda uma criança
Mas já era liberdade.

Era já uma promessa
Era a força da razão
Do coração à cabeça
Da cabeça ao coração
Quem o fez era soldado
Homem novo, capitão
Mas também tinha a seu lado
Muitos homens na prisão

Esses que tinham lutado
A defender um irmão
Esses que tinham passado
O horror da solidão
Esses que tinham jurado
Sobre uma côdea de pão
Ver o povo libertado
Do terror da opressão

Não tinham armas é certo
Mas tinham toda a razão
Quando um homem morre perto
Tem de haver distanciação

Uma pistola guardada
Nas dobras da sua opção
Uma bala disparada
Contra a sua própria mão
E uma força perseguida
Que na escolha do mais forte
Faz com que a força da vida
Seja maior que a da morte.

Quem o fez era soldado
Homem novo, capitão
Mas também tinha a seu lado
Muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
Começou a floração
Do capitão ao soldado
Do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
Percebeu qual a razão
Porque o povo despojado
Lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
Em sua própria grandeza
Era soldado forçado
Contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
E no seu próprio país
Muitas vezes estrangulado
Pelo generais senis.

Capitão que não comanda
Não pode ficar calado
É o povo que lhe manda
Ser capitão revoltado
É o povo que lhe diz
Que não ceda e não hesite
- pode nascer um país
Do ventre de uma chaimite.

Porque a força bem empregue
Contra a posição contrária
Nunca oprime nem persegue
- é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
As portas da claridade
E a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
Na madrugada serena
Um poeta que cantava
O povo é quem mais ordena.

E então por vinhas       sobredos
Vales   socalcos           searas
Serras  atalhos             veredas
Lezírias e praias claras
Desceram homens sem medo
Marujos           soldados          “páras”
Que não queriam o degredo
Dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
Onde os monstros se acoitavam
Era a hora da verdade
Para as hienas que mandavam
A hora da claridade
Para os sóis que despontavam
E a hora da vontade
Para os homens que lutavam.

Em idas            vindas              esperas
Encontros        esquinas           e praças
Não se pouparam as feras
Arrancaram-se as mordaças
E o povo saiu à rua
Com sete pedras na mão
E uma pedra de lua
No lugar do coração.

Dizia soldado   amigo
Meu camarada e irmão
Este povo está contigo
Nascemos no mesmo chão
Trazemos a mesma chama
Temos a mesma ração
Dormimos na mesma cama
Comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
Soldadinho ou capitão
Este povo está contigo
A malta dá-te razão.

Foi esta força viril
De antes quebrar que torcer
Que em vinte e cinco de Abril
Fez Portugal renascer.

E em Lisboa     capital
Dos novos mestres de Aviz
O povo de Portugal
Deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado
Às vezes por mãos estranhas
O poder que ali foi dado
Saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
Vales   socalcos           searas
Serras  atalhos             veredas
Lezírias e praias claras
Onde um povo se curvava
Como um vime de tristeza
Sobre um rio onde mirava
A sua própria pobreza.

E se esse poder um dia
O quiser roubar alguém
Não fica na burguesia
Volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
Que em boa hora o pariu
Agora ninguém mais cerra
As portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
Se escancaravam de vez
Essas janelas vazias
Que se encheram outra vez
E essas celas tão frias
Tão cheias de sordidez
Que espreitavam como espias
Todo o povo português.

Agora que já floriu
A esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
Levantado como um punho
Em Maio surgiu vermelho
O cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários         mineiros
pescadores e ganhões
Marçanos e carpinteiros
Empregados dos balcões
Mulheres a dias            pedreiros
Reformados sem pensões
Dactilógrafos               carteiros
E outras muitas profissões
Souberam que o seu dinheiro
Era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
Jornalistas que escreviam
Actores que se desdobravam
Cientistas que aprendiam
Poetas que estrebuchavam
Cantores que não se vendiam
Mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
Escrever constrói liberdade
E não há coisa mais pura
Do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
Na mesma luta de ideais
Ambos sectores explorados
Ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
Entre pragas e perjúrios
Agulhas que se espetavam
Silêncios boatos murmúrios
Risinhos que se calavam
Palácios contra tugúrios
Fortunas que levantavam
Promessas de maus augúrios
Os que em vida se enterravam
Por serem falsos e espúrios
Maiorais da minoria
Que diziam silenciosa
E que em silêncio fazia
A coisa mais horrorosa:
Minar como um sinapismo
E com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então         se bem vos lembro
Que sucedeu a vindima
Quando pisámos Setembro
A verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
Que sabia tanto a Abril
Que nem o medo da morte
Nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
Juntos soldados e povo
Para mostrarmos como é
Que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!                 
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
Odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
Mais forte que a Primavera
Que trouxe os homens sem dono
De que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
Pescadores e ganhões
Operários e carpinteiros
Empregados dos balcões
Mulheres a dias            pedreiros
Reformados sem pensões
Dactilógrafos               carteiros
E outras muitas profissões
Que deu o poder cimeiro
A quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
Nós repartimos o pão
É que acabaram os bodos
- cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas        vivendas
Palácios e palacetes
Os generais com prebendas
Caciques e cacetetes
Os que montavam cavalos
Para caçarem veados
Os que tinham bons amigos
No consórcio dos sabões
E coçavam os umbigos
Como quem coça os galões
Os generais subalternos
Que aceitavam os patrões
Os generais inimigos
Os generais garanhões
Teciam teias de aranha
E eram mais camaleões
Que a lombriga que se amanha
Com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
Já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
Foi um baile de Tartufos
Uma alternância de terços
Entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
E para terras de Espanha
Os que faziam alardes
Dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
Capitães de pedra e cal
Os homens que na Guiné
Aprenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
Que um animal racional
Opõe àqueles que o firam
Consciência racional.

Os tais homens que souberam
Fazer a revolução
Porque na guerra entenderam
O que era a libertação.

Os que viram claramente
E com os cinco sentidos
Morrer tanta    tanta gente
Que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
Temperado com a tristeza
Que envolveram num abraço
Toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
E depois tão maltratada
Por quem herdou a desdita
Da história colonizada.

Daí ao povo o que é do povo
Pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo
Nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
E uma vela desfraldada
Para levar a ternura
À distância imaginada.

Foi este lado da história
Que os capitães descobriram
Que ficará na memória
Das naus que de Abril partiram

Das naves que transportaram
O nosso abraço profundo
Aos povos que agora deram
Novos países ao mundo.

Por saberem como é
Ficaram de pedra e cal
Capitães que na Guiné
Descobriram Portugal.

E em sua pátria fizeram
O que deviam fazer:
Ao seu povo devolveram
O que o povo tinha a haver:
Bancos            seguros            petróleos
Que ficarão a render
Ao invés dos monopólios
Para o trabalho crescer.
Guindastes       portos              navios
E outras coisas para erguer
Antenas centrais e fios
Dum país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
É preciso é aquecer
Pensar que somos um rio
Que vai dar onde quiser

Pensar que somos um mar
Que nunca mais tem fronteiras
E havemos de navegar
De muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
No Alentejo com pão
No Ribatejo com vinho
Na Beira com requeijão
E trocando agora às voltas
Ao vira da produção
No Alentejo bolotas
No Algarve maçapão
Vindimas no Alto Douro
Tomates em Azeitão
Azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
O povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
Em sua própria expressão:
A maneira mais primária
De que nós temos um quinhão
Da semente proletária
Da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
Homem novo               capitão
Mas também tinha a seu lado
Muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
Ainda pouco se disse
Um menino que sorriu
Uma porta que se abrisse
Um fruto que se expandiu
Um pão que se repartisse
Um capitão que seguiu
O que a história lhe predisse
E entre vinhas              sobredos
Vales   socalcos           searas
Serras  atalhos             veredas
Lezírias e praias claras
Um povo que levantava
Sobre um rio de pobreza
A bandeira em que ondulava
A sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
Ainda pouco se disse
E só nos faltava agora
Que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
Viessem ferrar o dente
Na carne dos capitães
Que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
Povo soberano e total
Que ao mesmo tempo é a voz
E o braço de Portugal.

Ouvi     banqueiros       fascistas
Agiotas do lazer
Latifundiários   machistas
Balofos verbos de encher
E outras coisas em istas
Que não cabe dizer aqui
Que aos capitães progressistas
O povo deu o poder!
E se esse poder um dia
O quiser roubar alguém
Não fica na burguesia
Volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
Que em boa hora o pariu
Agora ninguém mais cerra
As portas que Abril abriu!


Lisboa, Julho-Agosto de 1975
poema: Ary dos Santos
ilustrações: António Pimentel
Editorial Comunicação

20 maio 2013

Poema "Se" - Rudyard Kipling


      Escritor e poeta britânico, Joseph Rudyard Kipling é considerado o maior inovador da "arte do conto curto". Os seus livros para crianças são considerados clássicos da literatura infantil, e o seu trabalho dá mostras de um talento narrativo versatil e brilhante. Adiante se transcreve, em português e inglês, um dos seus poemas mais conhecidos, "Se".
Foi um dos escritores mais populares de Inglaterra, em prosa e poema, do final do século XIX e início do século XX. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1907.
Uma das suas obras, o "Livro da Selva", foi adoptado por Robert Baden Powell, fundador do Escutismo, como cena de fundo para as actividades com jovens dos 7 aos 11 anos, denominando os jovens dessa faixa etária como "Lobinhos".
Rudyard Kipling nasceu em Bombaim, na Índia Britânica, a 30 de Dezembro de 1865 e faleceu em Londres a 18 de Janeiro de 1936. 


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Poema “Se”
Rudyard Kipling
Tradução de Guilherme de Almeida

Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E, o que é muito mais - serás um homem, meu filho!
- - - - - - - - - - - -

If

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings --nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And --which is more-- you'll be a Man, my son!
                                                                          = Rudyard Kipling =

21 março 2012

Tempo

21 de Março - Dia Mundial da Poesia. Foi criado na XXX Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999. O propósito deste dia é promover a leitura, escrita, publicação e ensino da poesia através do mundo.

Assim sendo, deixo este poema...porque hoje...é tempo de poesia!


            
O que o tempo faz ao homem
Chamamos tempo de vida,
Mas existe o contratempo
Do homem ter uma vida
Onde não passa o tempo,
Pois é o homem que passa
Pelo tempo da sua vida.

De momento a momento
O homem passa e repassa
Sem alterar o seu tempo;
- Tempo marcado e marcante
De uma vida inconstante
Que se vive num instante!

Marcada por este momento
Em que escrevo este tormento
De palavras em poesia!

Não era isto que eu queria,
Mas saiu em turbilhão,
Rápida e espontaneamente,
Da mente para o coração
E do coração para a mente,
Surgindo em catadupa
Na ponta de uma caneta!

Destas palavras resulta
Um breve apontamento
Sobre a passagem do tempo
De uma vida que não é treta!
E não tenho que dar desculpa
Sobre o mau comportamento
Desta minha caneta!

escrito em 21/03/2007
(Dia Internacional da Poesia)

31 janeiro 2012

Esperança



É curioso...escrevi este poema em 1980. Um dia destes, passados que foram todos estes anos, ao dar uma arrumação na papelada, voltei a reler o mesmo: - É incrível como se mantém actualizado! Só me leva a concluir que "os cães ladram e a caravana passa" - os anos passam e este mundo imundo continua a fazer das suas, muito porque esta raça humana à qual pertencemos tem liberdade para tudo...até para destruir a própria liberdade!. 
Aqui vai:



Neste mundo conturbado
muitas coisas podia fazer.
Meu Deus, será pecado
permanecer com este lazer?

Não, oh céus! Não!
Necessito do Teu auxílio,
não quero viver como um "cão",
sempre em constante martírio!

Para quê tanta desgraça?
Para quê tanta guerra?
Vejo o mundo que passa
em constante desalinho:
- É a fome, é a esmola
de um pobre no caminho;
- É a andorinha que voa
à procura do seu ninho;
- É o pão que falta na mesa,
são os filhos por criar,
e a própria Natureza
já não sabe como andar...

Sim, compreendo-Te,
isto tem de acontecer:
- Nosso karma está traçado,
nada podemos fazer...

Haverá o dia em que, finalmente,
regressarás meu Deus!
E tudo isto acabará num repente!
Anseio por esse dia:
Pela Luz!...vinda das Trevas!
Pela Paz!...vinda das Guerras!
Pelo Pão!...vindo das Terras!
E tu, Homem, que vagueias,
que mentes! que matas! que erras!
Por favor, ultrapassa as ameias
da tua prisão cheia de feras!

Ama!
Ama a Vida!
a Morte!
a Natureza!
Qualquer uma te é querida
e te dará grande riqueza!

Não acreditas pois não?
Preferes destruir o Mundo,
preferes acelerar, cada vez mais,
a tua auto-destruição,
caindo num poço sem fundo...

= Carlos G. Pedro =