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26 novembro 2016

O napalm e o Facebook

No mundo das chamadas novas tecnologias sempre fui adverso a qualquer rede social ou a qualquer relacionamento de amizade que se possa travar virtualmente, se é que se possa chamar a isso de "amizade".
Até tenho uma conta no facebook, é verdade, mas só a pedido de várias famílias e amigos e para manter contacto com algumas pessoas reais que fazem parte da minha vida. Se me perguntarem quantas vezes vou ao meu facebook, direi que a maior parte das vezes até me esqueço que tenho conta aberta. Por isso, raramente lá vou.
Vem isto a propósito de ter encontrado um artigo deveras interessante sobre este tema, publicado no blog NÚMERO F/, de Manuel Vilar de Macedo, e que, com a devida vénia, passo a transcrever.
Carlos Pedro


Eu sei que sou a única pessoa do mundo que não gosta do facebook. Na verdade tenho lá uma conta, mas só serve para manter contacto com algumas pessoas. Há muitas razões para que eu não perca horas da minha vida no facebook, mas Mark Zuckerberg e seus associados continuam regularmente a fornecer-me provas de que este meu desdém pela «rede social» é inteiramente justificado. 
A última delas foi a que se segue: o jornal norueguês Aftenposten publicou, não sei a que propósito, a conhecida fotografia de Nick Ut que reproduzo acima na sua página do facebook. Evidentemente, todos sabem que esta fotografia mostra a fuga de várias crianças de uma aldeia vietnamita atacada por engano pela força aérea sul-vietnamita com uso de napalm. A criança que se vê no meio do enquadramento está nua porque foi atingida pelo napalm, o que lhe provocou uma sensação de ardor insuportável. Nick Ut, o fotógrafo, atirou-lhe baldes de água, mas a criança, de nome Phan Thi Kim Phuc, continuou a gritar queixando-se do calor. 
Não sei por que o jornal norueguês decidiu publicar a fotografia de Nick Ut na sua página do facebook; o que sei é que alguém entendeu que aquela imagem colidia com os padrões morais do facebook relativos a imagens de nudez infantil e houve por bem eliminá-la da página do Aftenposten. 
Os leitores do Número f/ poderão, eventualmente, não compreender a razão por que a fotografia foi apagada; e, de facto, é difícil de entender. É, simplesmente, daquelas coisas que fazem recuar as fronteiras da estupidez humana. Francamente, em que estavam os guardiães da moral facebookiana a pensar? Que a fotografia de Nick Ut é obscena, ou mesmo pornográfica? Que a intenção do fotógrafo foi a de fotografar uma menina vietnamita nua, quem sabe para seu prazer e de alguns pervertidos? 
Esta polémica absurda dá que pensar. Só uma mente muito perturbada poderia imaginar que a nudez de Phan Thi Kim Phuc tem algo de indecente, imoral ou ofensivo. Se há algo indecente, imoral ou ofensivo nesta fotografia é o que ela retrata – o horror da guerra e dos seus «danos colaterais» (que é o que agora chamam aos crimes contra civis cometidos durante guerras). Que isto passe ao lado dos censores e estes só vejam aqui uma fotografia de uma criança nua levanta questões curiosas, como a falta de informação e de ilustração desses guardiães do pudor. Não conhecer a fotografia de Nick Ut é, só por si, bastante grave; não entender a sua mensagem é ainda mais grave, mas reduzir tudo à questão da nudez da menina é gravíssimo. Ou melhor: a gravidade não está em que haja pessoas tão ignorantes e pervertidas: está em elas terem uma profissão que consiste em fazer censura com base em juízos morais. 
Deste modo, temos o dever de concluir que o facebook é gerido por gente ignorante, moralmente dogmática, obtusa, completamente desprovida de noção do ridículo e pervertida. Sim, porque só uma mente doentia consegue ver malícia numa fotografia como esta, abstraindo por completo das suas circunstâncias e vendo apenas a criança nua.

19 agosto 2016

Banqueiros



Estes senhores usaram as poupanças e os créditos concedidos aos seus clientes de menores recursos para iludir os rácios e esconder os créditos duvidosos que estavam a conceder a amigos ou o financiamento dos seus grupos empresariais mal geridos.

Estes senhores usaram os recursos financeiros resultantes das poupanças do país e a sua capacidade financeira para financiar empresas menos competitivas e dedicadas a negócios oportunistas, penalizando os empresários mais competitivos, impedindo a renovação da classe empresarial.

Estes senhores promoveram o lado escuro da economia asfixiando financeiramente os projectos que poderiam tornar a economia competitiva, promoveram o lado escuro da economia favorecendo os grupos empresariais menos competitivos e que se dedicavam aos negócios mais oportunistas.


Estes senhores usaram o poder que tinham para fazer favores a políticos, jornalistas e a todos os que lhe podiam ser úteis, financiaram-lhes a boa vida, deram-lhes dinheiro para as suas campanhas, viagens e igreja, empregaram-lhes a família, decidiram muitas nomeações no Estado e a escolha de muitos políticos, transformaram as instituições portuguesas em poderosas máquinas corruptas ao serviço dos seus interesses.


 Fonte:
Imagem: Cortesia de O Contemporâneo (Blog)
Texto: Cortesia de "O Jumento" (Blog)

10 abril 2016

Carta aberta aos MORALISTAS dos media e das redes sociais

Durante quase 6 anos, todos os VOSSOS discursos e os VOSSOS argumentos eram baseados neste conceito de MORALIDADE: Que era IMORAL exigir alguma coisa aos nossos CREDORES (os RICOS, DONOS do DINHEIRO) – nós TODOS é que teríamos de ser bem comportados e OBEDECER cegamente a TUDO o que eles exigissem e VOCÊS dissessem!




CARTA ABERTA AOS MORALISTAS QUE POVOAM OS MEDIA E AS REDES SOCIAIS

(Jornalistas, Comentadores, Políticos, Fiscalistas, Advogados, Banqueiros, Gestores Públicos, Administradores do PSI20, etc.)

Meus caros,
NUNCA MAIS ME VÃO CALAR!

Nos últimos quase 6 anos fomos OBRIGADOS a ouvir os VOSSOS discursos MORALISTAS:
- Que tínhamos de EMPOBRECER porque vivíamos acima das nossas possibilidades;
- Que tínhamos de EMIGRAR porque o País não tinha riqueza para tantos;
- Que tínhamos de nos portar bem e cumprir TUDO o que os nossos credores mandassem (a tese do BOM ALUNO), porque o dinheiro era deles e nós é que o tínhamos usado.

Cada vez que um de nós questionava o que quer que fosse, lá vinham as VOSSAS respostas MORALISTAS:
- Que era IMORAL ter os povos trabalhadores do norte da Europa (especialmente da Alemanha, da Finlândia e da Áustria) a sacrificarem-se para pagar aos preguiçosos do sul da Europa (especialmente de Portugal, da Grécia e de Espanha);
- Que era IMORAL usar o dinheiro dos credores e, agora, tentar questionar os juros que nos cobravam, os prazos que nos exigiam ou as condições que nos impunham.

Todos os VOSSOS discursos e os VOSSOS arguentos eram baseados no conceito de MORALIDADE e IMORALIDADE.
Que era IMORAL exigir aos nossos CREDORES (os RICOS, os DONOS do DINHEIRO):

- Sustentar os nossos Reformados (que ganhavam demais e se tinham reformado cedo demais);
- Sustentar os nossos Funcionários Públicos (que eram demais, ganhavam demais e, principalmente, trabalhavam de menos);
- Sustentar os beneficiários do RSI (que eram todos uns oportunistas, mentirosos e desonestos);
- Sustentar os nossos Desempregados (que eram todos uns preguiçosos que preferiam receber subsídios do que trabalhar);
- Sustentar os nossos DOENTES (com os quais não valia a pena gastar tanto dinheiro para os manter vivos, especialmente os mais velhos e já não produtivos).

Durante quase 6 anos, todos os VOSSOS discursos e os VOSSOS argumentos eram baseados neste conceito de MORALIDADE: Que era IMORAL exigir alguma coisa aos nossos CREDORES (os RICOS, os DONOS do DINHEIRO) – nós TODOS é que devíamos de ser bem comportados e OBEDECER cegamente a TUDO o que eles exigissem e VOCÊS dissessem!

No fundo, durante quase 6 anos, todos VOCÊS nos tentaram convencer (e, a muitos, conseguiram convencer mesmo), que os RICOS são todos BONS (que até nos emprestam dinheiro) e MORAIS (e eventualmente, cumpridores  dos ditames da santa madre igreja) e que nós todos, os Pobres, somos todos PREGUIÇOSOS, INDIGNOS do País que temos, do Povo que somos.

E, que sabemos agora?
Que os tais DONOS DO DINHEIRO:
- O escondem;
- Fogem aos impostos;
- Corrompem os políticos para ganhar negócios;
- Promovem, patrocinam, financiam ou lucram com todo o tipo de negócios escuros e sem escrúpulos.

Seis (6) anos a ouvir-vos falar de MORALIDADE?
Moralidade?
6 anos?
Chega! Calem-se!

NENHUM de vocês tem, neste momento, qualquer MORAL para falar de MORALIDADE!

Meus caros, a mim, NUNCA mais me vão calar!
Vão ter de me ouvir!
Vão ter de ouvir os meus argumentos e vão ter de arranjar argumentos vossos que não sejam os da MORALIDADE, porque essa, a MORALIDADE (e a HONESTIDADE), os vossos DONOS (os DONOS do DINHEIRO), NÃO TÊM NENHUMA (provaram-no!).
Repito: A mim, NUNCA mais me vão calar!

Carlos Paz, professor de economia

Fonte:
Cortesia de  Carlos Paz - Portugal Glorioso (Blog)

12 fevereiro 2016

Três verdades inconvenientes



     Por ser um actual e interessante artigo, da autoria de Marco Capitão Ferreira, do "Económico", tomo a liberdade, com a devida vénia, de transcrever:

     "É impossível ter uma discussão séria sobre política orçamental e política económica (e não, não são a mesma coisa mas relacionam-se intimamente) sem desempoeirar alguns factos. E há três que hoje se devem destacar, porque estão na base da necessidade de uma nova política orçamental. Vamos a elas:


1) Quem tem pago os aumentos de impostos são as famílias, não as empresas.

     No ano 2000, ao começar este século, a divisão da tributação directa entre as famílias (IRS) e as empresas (IRC) era de 6,7 mil milhões de euros para as primeiras e 4,5 mil milhões de euros para as segundas (dados Pordata).
     Em 2014, depois do brutal aumento de impostos sobre as famílias, promovido pelo anterior governo a coberto da austeridade, essa relação é de 12,9 mil milhões de euros para as primeiras e … 4,5 mil milhões para as segundas.
     Dito de outra forma, enquanto o esforço fiscal imposto às famílias duplicou em 15 anos, o esforço fiscal pedido às empresas ficou no mesmo valor. Como o PIB, apesar de tudo, aumentou qualquer coisa em 15 anos, o que isto nos diz é que o esforço relativo das empresas diminuiu.


2) Problemas de produtividade dos trabalhadores? A sério?

     É um lugar comum dizer que há um problema de produtividade na economia portuguesa. O que até está certo, mas, de seguida, imputa-se a necessidade de melhor produtividade exclusivamente aos trabalhadores. Ora, no mesmo período (2000-2015), a riqueza criada na produção, em média, por cada trabalhador, aumentou de 23.000 euros para 35.000 euros/ano. Um aumento de quase 50% em valor, ao longo de 15 anos ou, se quisermos, mais de 3% ao ano.


Fonte:
Cortesia de Económico  (Marco Capitão Ferreira)

30 dezembro 2015

Filhos da Puta


A vida é filha da puta,
A puta é filha da vida...
Nunca vi tanto filho da puta
Na puta da minha vida.”
(atribuído a Bocage)

Eu sei que nesta quadra deveríamos ser bondosos e evitar chamar alguém por filhos da puta e muito menos a ministros da Opus Dei, banqueiros com capelas privativas  nos logradouros das suas residências, políticos que em nome das dificuldades do país não dão prendas de Natal à filha, ministras que se inspiram em Jesus Cristo, presidentes que não faltam às missas e muitas outras almas caridosas que temos vindo a conhecer melhor nos últimos tempos. Mas quando ouço num canal de televisão que uma merda de um banco como o BANIF vai custar ao país mais de 3.000 milhões e ouço na rádio que um jovem morre porque o Paulo Macedo poupou uns euros para não ter de pagar nada a médicos que ficam de prevenção nos fins de semana, só me ocorre chamar filhos da puta a esses filhos da puta.

Artistas como Vítor Bento venderam-nos a tese de que os pobres andaram a consumir em excessos, o falecido (que a terra lhe seja leve) António Borges que concebeu a experiência da desvalorização fiscal a que o país foi sujeito com o apoio do FMI e do Durão Barroso, o banqueiro do BPI que assegurou que o povo aguentaria tudo o que lhe foi feito. Eramos um povo de gandulos, gulosos e piegas que tinham levado o país à ruína.

A solução era empobrecer, atafulhar as turmas das escolas, sujeitar as crianças a exames a toda a hora, aumentar o horário de trabalho, deixar os doentes a morrer nas urgências, castigar tudo e todos numa experiência económica e social revolucionária que tornaria Portugal no país mais competitivo do mundo. Gente com ar esquisito como a Maria Luís e o seu amigo dos Transportes, o não sei quê do Portas e a sua bondosa Cristas vinham reeducar o país á força de cortes, emigração, miséria e humilhação colectiva.

Continua...

(...sem comentários...palavras para quê?)
Cortesia de:

25 abril 2014

O meu país não é deste Presidente, nem deste Governo

 

     No dia em que se comemoram 40 anos sobre a histórica Revolução dos Cravos, que finalmente colocou Portugal na rota da democracia, não posso de deixar de transcrever o artigo que foi publicado no site do Jornal "Público" em 8 de Abril de 2014, e que ilustra bem o estado em que Portugal chegou.      Quarenta anos depois apresentamos uma democracia podre, que mais se assemelha a uma ditadura disfarçada, ainda por cima integrados numa União Europeia que, de união tem muito pouco....
     Alexandra Lucas Coelho, jornalista e escritora portuguesa, ilustra bem a situação em que Portugal se encontra, no discurso que proferiu, aquando da entrega do prémio APE (Associação Portuguesa de Escritores). 


Crónica de opinião transcrita do site do Jornal "Público", de 8 de Abril de 2014:


= Alexandra Lucas Coelho recebeu nesta segunda-feira (7 de Abril de 2014) o prémio APE (Associação Portuguesa de Escritores) pelo romance «E a Noite Roda».
Este é o texto do discurso que fez, no qual critica o actual poder político. (em Portugal) =


     ''«E a Noite Roda» não é sequer o melhor romance que eu podia ter escrito entre 2010 e 2011, os meus últimos meses em Portugal e o meu primeiro ano no Brasil. Não foi, certamente, o que muita gente achava que eu devia ter feito. É apenas o que eu precisava de fazer naquele momento para sair do ponto em que estava. O importante não será fazer o melhor que sabemos, mas o que precisamos de fazer, mesmo não sabendo, para sair do nosso limite. Aquilo que nos desloca se estamos fixos, que nos fixa se estamos deslocados.

     Estou a voltar de três anos e meio a morar no Brasil. Um dia, a meio dessa estadia brasileira, pediram-me que gravasse um excerto de um conto de Clarice Lispector para o site do Instituto Moreira Salles. Era um conto em que a protagonista era portuguesa, daí o pedido, que a voz coincidisse com o sotaque. Como detestei aquela portuguesa do conto da Clarice. Tudo na boca dela era inho e ito. Era o Portugal dos Pequenitos com a nostalgia das grandezas. Aquele que diz “cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas”, mas sofre de ressentimento. O Portugal que durante 40 anos Salazar achou que era seu, pobre mas honesto-limpo-obediente, como agora o Governo no poder quer Portugal, porque acha que Portugal é seu.

     Estou a voltar a Portugal 40 anos depois do 25 de Abril, do fim da guerra infame, do ridículo império. Já é mau um governo achar que o país é seu, quanto mais que os países dos outros são seus. Todos os impérios são ridículos na medida em que a ilusão de dominar outro é sempre ridícula, antes de se tornar progressivamente criminosa.
     Entre as razões por que quis morar no Brasil houve isso: querer experimentar a herança do colonialismo português depois de ter passado tantos anos a cobrir as heranças do colonialismo dos outros, otomanos, ingleses, franceses, espanhóis ou russos.
     E volto para morar no Alentejo, com a alegria de daqui a nada serem os 40 anos da mais bela revolução do meu século XX, e de o Alentejo ter sido uma espécie de terra em transe dessa revolução, impossível como todas.

     Este prémio é tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, cargo agora ocupado por um político, Cavaco Silva, que há 30 anos representa tudo o que associo mais ao Salazarismo do que ao 25 de Abril, a começar por essa vil tristeza dos obedientes que dentro de si recalcam um império perdido.
     E fogem ao cara-cara, mantêm-se pela calada. Nada estranho, pois, que este Presidente se faça representar na entrega de um prémio literário. Este mundo não é do seu reino. Estamos no mesmo país, mas o meu país não é o seu país. No país que tenho na cabeça não se anda com a cabeça entre as orelhas, “e cá vamos indo, se deus quiser”.
     Não sou crente, portanto acho que depende de nós mais do que irmos indo, sempre acima das nossas possibilidades para o tecto ficar mais alto em vez de mais baixo. Para claustrofobia já nos basta estarmos vivos, sermos seres para a morte, que somos, que somos.
     Partimos então do zero, sabendo que chegaremos a zero, e pelo meio tudo é ganho, porque só a perda é certa.
     O meu país não é do orgulhosamente só. Não sei o que seja amar a pátria. Sei que amar Portugal é voltar do mundo e descer ao Alentejo, com o prazer de poder estar ali porque se quer. Amar Portugal é estar em Portugal porque se quer. Poder estar em Portugal apesar de o Governo nos mandar embora. Contrariar quem nos manda embora como se fosse senhor da casa.

     Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do Governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o Governo de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este Governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página”.
     Este país é dos bolseiros da FCT (Faculdade de Ciências e Tecnologia) que viram tudo interrompido; dos milhões de desempregados ou trabalhadores precários; dos novos emigrantes que vi chegarem ao Brasil, a mais bem formada geração de sempre, para darem tudo a outro país; dos muitos leitores que me foram escrevendo nestes três anos e meio de Brasil a perguntar que conselhos podia eu dar ao filho, à filha, ao amigo, que pensavam emigrar.
     Eu estava no Brasil, para onde ninguém me tinha mandado, quando um membro do seu Governo disse aquela coisa escandalosa, pois que os professores emigrassem. Ir para o mundo por nossa vontade é tão essencial como não ir para o mundo porque não temos alternativa.

     Este país é de todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque aqui se sentem a morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito, inventivo. Conheci-os, estão lá no Rio de Janeiro, a fazerem mais pela imagem de Portugal, mais pela relação Portugal-Brasil do que qualquer discurso oco dos políticos que neste momento nos governam. Contra o cliché do português, o português do inho e do ito, o Portugal do apoucamento. Estão lá, revirando a história do avesso, contra todo o mal que ela deixou, desde a colonização, da escravatura.

     Este país é do Changuito, que em 2008 fundou uma livraria de poesia em Lisboa, e depois a levou para o Rio de Janeiro sem qualquer ajuda pública, e acartou 7000 livros, uma tonelada, para um 11.º andar, que era o que dava para pagar de aluguer, e depois os acartou de volta para casa, por tudo ter ficado demasiado caro. Este país é dele, que nunca se sentaria na mesma sala que o actual Presidente da República.
     E é de quem faz arte apesar do mercado, de quem luta para que haja cinema, de quem não cruzou os braços quando o Governo no poder estava a acabar com o cinema em Portugal. Eu ouvi realizadores e produtores portugueses numa conferência de imprensa no Festival do Rio de Janeiro contarem aos jornalistas presentes como 2012 ia ser o ano sem cinema em Portugal. Eu fui vendo, à distância, autores, escritores, artistas sem dinheiro para pagarem dívidas à Segurança Social, luz, água, renda de casa. E tanta gente esquecida. E, ainda assim, de cada vez que eu chegava, Lisboa parecia-me pujante, as pessoas juntavam-se, inventavam, aos altos e baixos.

     Não devo nada ao Governo português no poder. Mas devo muito aos poetas, aos agricultores, ao Rui Horta, que levou o mundo para Montemor-o-Novo, à Bárbara Bulhosa, que fez a editora em que todos nós, seus autores, queremos estar, em cumplicidade e entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens canibais.
     Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso.

     Portugal talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100 anos, tudo corre para acabar, sabemos. Mas enquanto isso estamos vivos, não somos sobreviventes.

     Este romance também é sobre Gaza. Quando me falam no terrorismo palestiniano confundindo tudo, Al-Qaeda e Resistência pela nossa casa, pela terra dos nossos antepassados, pelo direito a estarmos vivos, eu pergunto o que faria se tivesse filhos e vivesse em 40km por seis a dez de largura, e antes de mim os meus antecedentes, e depois mim os meus filhos, sem fim à vista. Partilhei com os meus amigos em Gaza bombardeamentos, faltas de água, de luz, de provisões, os pesadelos das meninas à noite. Depois de eu partir a vida deles continuou. E continua enquanto aqui estamos. Mais um dia roubado à morte.'' =

Fonte:
Cortesia do jornal "Público" - O meu país não é deste Presidente, nem deste Governo

25 abril 2012

Portugal, o 25 de Abril e a Democracia



Passados 38 anos sobre a Revolução dos Cravos, que permitiu a implantação da Liberdade e da Democracia em Portugal, urge perguntar se este tempo não foi o suficiente para criar responsabilidade, transparência, lealdade, patriotismo e outros valores que realmente deveriam catapultar Portugal para (pelo menos) um dos países mais desenvolvidos da Europa.

A nossa adesão à CEE - Comunidade Económica Europeia, em 1 de Janeiro de 1986, foi uma das consequências da Revolução de Abril e das subsequentes alterações que esta decisão provocou a nível político, económico e social; 
- O 25 de Abril veio colocar um fim a uma política económica em desagregação, com uma grande dependência externa e a um poder político contestado por um povo em constante pobreza, com más condições de vida e um fraco poder de compra;
- A adesão à CEE, inicialmente num período transitório (1986 a 1991), exactamente porque o nosso nível de desenvolvimento era inferior aos outros estados membros, veio canalizar milhões e milhões de escudos para toda a mudança económica, estrutural e de desenvolvimento de Portugal. Durante este período o nosso país foi adaptando a sua legislação às normas comunitárias, permitindo assim a evolução da  economia. Com o passar do tempo, veio a adesão à moeda única em 1 de Janeiro de 2002, com a vinda de mais e mais fundos para tudo e para nada, desta vez em euros. Veio também a adesão a variados Tratados Europeus que foram surgindo (alguns de duvidosa aplicação e resultado).

E para quê? - 26 anos depois de entrarmos na União Europeia (UE) e 10 anos depois de entrarmos na 3ª fase da União Económica e Monetária (UEM), com a moeda única, Portugal ainda está muito longe do nivelamento da sua economia pela dos outros estados membros. Estamos muito abaixo da média da União Europeia! E com a agravante de se colocarem na UE os problemas da concretização da UEM, o que obriga Portugal a ter um desenvolvimento económico superior ao dos outros países, a fim de conseguir cumprir os objectivos da UE. 
E estamos cumprindo esses objectivos? - Decididamente que não!

O 25 de Abril permitiu realmente colocar um ponto final ao obscurantismo em que Portugal vivia. Mas...e agora? - Será que não estamos também numa espécie de "obscurantismo" provocado pelo atraso de anos e anos, originado pela irresponsabilidade, desonestidade, deslealdade e corrupção de tantos e tantos governantes e outros que tais que por aqui passaram...e ainda passam?

A História nunca se repete da mesma maneira, mas o capitalismo, o discurso político e as tácticas e estratégias de mercado que nos regem, esses, sim, repetem-se com pequeníssimas variações ao longo do tempo.

A democracia representativa portuguesa é (como em toda a Europa) uma farsa anti-democrática. Mas os seus mecanismos têm um efeito anestesiante. Não há democracia quando o povo não participa. E o povo, aqui, deixou de ser o sujeito principal da História.
Em Portugal, a maioria dos governantes, salvo raríssimas excepções, já não representam o povo:
- Representam os grandes grupos económicos, representam os mercados que regem a economia mundial, representam os tecnocratas sentados nas cadeiras do poder da UE ou, em última instância, representam os interesses dos Partidos ou representam-se a si próprios!

Hoje celebra-se o Dia da Liberdade....qual liberdade?
 - a liberdade de termos de aguentar cada vez mais medidas de austeridade que não nos dá liberdade nenhuma?;
- a liberdade de comer e calar?;
- a liberdade de ficarmos impávidos e serenos enquanto destroem os valores da liberdade conquistada em Abril?
  
A continuarmos assim, será necessário outra Revolução para implementar uma VERDADEIRA Democracia...com VERDADEIRA Liberdade!
Mas a revolução necessária não seria de cravos...neste país à beira mar plantado são urgentes várias revoluções:
- de valores patrióticos, morais, sociais...
- de consciências verdadeiramente democráticas, que pensem no país, no seu povo, e não nos seus interesses!
- de mentalidades, para que os anteriores surtam efeito!    

Já em 1872, nas crónicas que Eça de Queiroz publicava mensalmente em "As Farpas", comparava Portugal à Grécia! - 140 anos depois, parece que o tempo não passou!


"Nós estamos num estado comparável apenas à Grécia:
a mesma pobreza, a mesma indignidade política, a mesma trapalhada, a mesma baixeza de carácter, a mesma decadência de espírito.
Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se em paralelo, a Grécia e Portugal"
 = Eça de Queiroz, in "As Farpas", 1872 =