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24 novembro 2014

Pedra Filosofal



Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.



Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.



Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.



Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."


 = in “ Movimento Perpétuo ”, 1956 =

= António Gedeão, pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho ou, simplesmente, Rómulo de Carvalho, químico, professor, pedagogo, investigador de História da Ciência em Portugal, e poeta português  (24 de Novembro de 1906 - 19 de Fevereiro de 1997) =

Amador sem coisa amada


Amador sem coisa amada

Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.



= António Gedeão, pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho ou, simplesmente, Rómulo de Carvalho, químico, professor, pedagogo, investigador de História da Ciência em Portugal, e poeta português  (24 de Novembro de 1906 - 19 de Fevereiro de 1997) =

Lágrima de Preta


Lágrima de Preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para analisar.


Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.


Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.


Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.


Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:


Nem sinais de negro
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.



= António Gedeão, pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho ou, simplesmente, Rómulo de Carvalho, químico, professor, pedagogo, investigador de História da Ciência em Portugal, e poeta português  (24 de Novembro de 1906 - 19 de Fevereiro de 1997) =